Marcas

 

Ainda me lembro das palavras que não pude dizer, do seu olhar de “tudo bem” quando lhe neguei atenção e prometi que falaríamos depois, eu precisava fazer as lições. Não deu tempo, ou talvez houve tempo suficiente e eu não sabia como aproveitar.

Pensei que você sempre estaria aqui, que eu voltaria ao mesmo momento e poderia te ouvir, que ficaríamos acordados até tarde lembrando de músicas e brincando de stop.

Acreditei que nos encantaríamos com a cor do céu muitas vezes ainda e que me pediria sorridente para separar a camiseta preferida da mesma cor, sempre bem na hora que eu estava atrasada para ir à escola.

Pensei que nos veríamos de novo, depois daquela conversa. Eu gostaria tanto de ter entendido o que me disse aquele dia mesmo e de ter idade para saber o que eram as entrelinhas. Queria ter sabido te dizer as palavras certas e ter a certeza de te encontrar de novo, com o mesmo brilho nos olhos verdes que eu ainda ficava na ponta dos pés para encarar.

Me lembro da sua risada enchendo a madrugada, do seu olhar triste no dia seguinte. Do abraço apertado, quando incomodada com o seu silêncio eu me sentava ao seu lado e perguntava se o gato havia comido a sua língua.

Ainda é nitido o seu olhar nublado, segurando as lágrimas para que eu não chorasse quando me disse que precisava ir embora. Que sempre voltaria para me ver. Algo me disse que isso não aconteceria, mas fingi não ouvir. Preferi tentar guardar o seu perfume, as palavras sobre ser feliz sem me machucar e também não deixar ninguém fazer isso comigo. Que nada na vida seguia regras, que eu aprendesse a me surpreender.

Você partiu no meio da tarde. Aí, não tinha mais contagem de estrelas, nem os azuis do céu, o jogo de stop, as músicas para cantar junto contigo, meus pequenos textos para que lesse e tive que me acostumar com isso. O tempo passou, célere como sempre.

Eu o vi novamente, nem precisava ter crescido, você estava deitado, não o reconheci. Senão fossem os olhos felizes ao me ver, vaga lembrança do que eram num passado nem tão distante, eu teria seguido para o outro lado. Abracei alguém que não tinha mais força para fazê-lo.

Você partiu de novo no meio da tarde. A noite trouxe um vento de libertação e depois da madrugada o céu estava tão azul… sorri, naquele céu eu te encontrei novamente. Mais forte que tudo que eu não entendi foi encontrar em meio às suas poucas coisas um cartão com letra infantil, falando do azul do céu e do brilho do seu sorriso.

Sigo, meu irmão, os caminhos que me fazem bem e feliz, comemorando ou chorando as surpresas da vida. Há um céu azul que me olha e um brilho que carrego no coração eternamente.

4 pensamentos sobre “Marcas

  1. Cada linha aqui escrita, foi sentida por mim de forma única. Digo isso porque seu texto está tão perfeito e tão emocionante, que me fez chorar e tenho certeza que continuarei chorando pois este faço questão de ler, reler, ler e reler, quantas vezes eu precisarl. Não tenho palavras adequadas para expressar a sua grandeza, para definir de forma suprema sua escritas… Não tenho!!!

    Parabéns!!! Beijos Mil

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