O sopro do vento norte

Ele surgiu na curva da estrada, com o alvorecer. No rosto, o brilho triste do último orvalho da manhã. Trazia como companhia nada mais que a velha espada, sem bainha ou corte, e lembranças tristes de dias longe de casa, da casa que jamais pensou ver novamente. Olhava para o horizonte de pedras ao largo da margem do caminho, como se outro horizonte, mais sereno, acolhedor, não houvesse à frente, enquanto seguia o lento pisar do único amigo com quem parecia dividir sua dor.

Chegou. Achegou-se!

Os olhos percorreram o caminho até a casa, por sobre o portão, o chão de terra pisada, as escadas, até a varanda aonde eu o esperava, mesmo sem saber que um dia ele viria.

Não conhecia seus olhos, de um pálido tom de azul, nem suas mãos firmes, agora acanhadas entre as rédeas, como se temesse soltá-las e não conseguir encontrar mais utilidade para elas. O cabelo, cor de terra, da terra vermelha do caminho, não tinha a graça que imaginei tantas vezes em sonhos e o sorriso, apenas um riso difícil, não trazia o esplendor jovial das histórias da minha infância. As vestes brilhantes, riscadas em linhas de ouro e pedrarias que tantas vezes esbocei em idealismos pueris, nada mais eram que rústicos tecidos de cores indistintas, cuja formosura, se é que um dia a tivera, se perdera pelos meandros do caminho. Sua chegada tampouco foi heróica, nem seu companheiro possuía a beleza cândida e cúmplice dos contos antigos.

Apeou. Amoldou-se!

A dureza do chão, o inacabável tempo da caminhada, os velhos ossos já não tão resistentes… ou, talvez, apenas a estranheza de não ter sob si outras pernas que não as suas. Conhecedor do próximo passo, seu amigo afastou-se para os lados, buscando a companhia de um convidativo arbusto de rosas que o recebeu indiferente, abanando com desdém as folhas esverdeadas sob o vento frio que soprava do norte.

— Minha… Senhora. — O cumprimento veio de forma acanhada, como se as palavras tivessem desaprendido o caminho entre a origem e o destino final. O significado! Nada respondi, apenas acenei um assentimento ligeiro, coisa que carecia de mais crença.

Ele foi se achegando, sem cerimônia, sentou-se nos degraus da varanda e olhou absorto o caminho percorrido. Segui seu olhar, mas nas nuvens que pesavam sob seu semblante não vi nada mais que prenúncio de tempo bom. O dia, afinal, mostrava a que veio de acordo com cada pesar.

— Sou um forasteiro, um foragido, e entenderei se não me puder acolher à sombra de vossa varanda — as palavras, como antes, saíram sem cor ou forma; apenas deixaram os espaços da boca e ganharam o mundo, como se precisasse justificar o vazio deixado pelo silêncio.

Feita de silêncio, e ainda tomada pela surpresa, nada consegui responder.

Custava-me acreditar que meus sonhos haviam se deteriorado tanto. Os anos passados na solidão da distância, cujo arrastar vagaroso me haviam tomado a juventude, agora riam das minhas esperanças, desapiedados!

Tomei sua mão assustada e o conduzi para dentro. Sobre a mesa, pão, leite, mel e uma caneca rota que, por uma vida, esperou uma mão que a tomasse como sua. Comeu com sofreguidão, olhando-me sobre a maciez tenra do pão recém assado. Segui-o à mesa, o vaso de leite balouçando a frente do rosto, para disfarçar meu desacostume, minha inexperiência.

E, como se impelido pela insegurança do momento, ele contou-me suas desventuras.

Era desconcertante observá-lo sentado à minha frente, desajeitado nos modos, talvez pelo tempo na estrada, mas eu também não estava tão à vontade. No meio da história, sorvia da caneca entre as mãos, como se quisesse devolver as palavras à origem de suas causas. Os olhos, por vezes, atravessavam os meus, delineando na parede decadente as cenas que outrora lhe fizera soldado, homem honrado e perdido na tempestade de seus sentidos. Em seus traços vi os atos, a fuga, o silêncio.

Tomei-lhe o caneco com delicadeza e enchi-o com cerveja, achei que a hora era propícia e a bebida quente poderia saciar-lhe qualquer coisa que eu não entendia nos homens. Ele me parecia maior do que imaginei e de um apetite que eu não poderia dizer que me surpreendia, visto que conhecia apenas o meu. E assim, enquanto ele ia crescendo e preenchendo o espaço da cozinha conforme as horas consumiam a manhã, questionava-me o quanto havia imaginado e me perdido nas brumas do tempo. Onde estava o lago e o brilho do sol, ou os pássaros e as flores da primavera?!

Continuava a me contar suas impressões, as lutas perdidas no caminho até ali. Houve momentos em que vi a sua juventude longínqua, o fulgor do fogo em seus cabelos, e eram leves os traços riscados pelos relatos dos seus dias e noites de vigília, de sangue ou volúpia. Dias de lutas sem qualquer importância ou sentido para mim, noites que não conheci nos sonhos mais antigos e jamais pude descobrir o caminho que levava a eles.

Ele ia contando, enumerando seus feitos, enquanto eu seguia minha rotina de afazeres. Seguiu-me até o quintal, quando fui buscar lenha e espaço para os meus pensamentos. Com polidez e dificuldade, ele cortou a lenha e ainda servia-se da cerveja. Imaginei-me decepada como a lenha, lascas caídas aos seus pés e outras agarradas ao machado, sobrevivência ou agradecimento? Ouvi seu silêncio, branco como o inverno; assenti e ele ainda tinha a contar…

Sentei-me à mesa e nos servimos do assado. A fome, que parecia maior, não o calou e descreveu o sabor que sentia, o aroma da madeira infiltrado na carne, as ervas frescas que piquei com cuidado.

A impressão que um gigante invadia minha casa dava-me arrepios, e quando o vento da tarde anunciou o mesmo sentimento, acendi a lareira. As chamas cresciam e ele se libertava, fugia; dei mais atenção a esse capítulo de sua história, eu também queria fugir.

— E foi assim que aconteceu, senhora.

O azul esmaecido de seus olhos enevoou os meus por um momento. Ele era a lembrança de tudo que não vivi, a ilusão que me acompanhou por todos esses anos… Percebi suas pupilas aumentando e em pouco tempo estava envolta nas sombras vítreas de um olhar quase senil, distinto instantes atrás. Ele crescia, seus músculos voltavam ao que teriam sido num passado de glórias distante. Sua respiração era como a invasão das tempestades de outono, e diante de mim estava o sonho esquecido, alguém que prometeu voltar; já não me lembrava se era vida ou devaneio a promessa que se apresentava.

Como se as palavras já houvessem acabado, ele tomou-me de repente, sugou de minha boca tudo o que não havia dito nunca na vida. Senti o sugar das angústias e medos, a desesperança de caminhos não seguidos, o grito terrível emudecido pela espera e a rotina que embotou minhas forças. E o grito ecoou de mim para ele, e dele para a sala, para a casa, para a vila inteira talvez. Tudo tremeu ao redor e, depois, retornou ao silêncio. Como a visão do tremeluzir da chama duma vela. E esta ilusão estava ali, próxima ao teto, era como uma bolha, uma nuvem translúcida com cada momento que fiquei para traz, que achei melhor esperar o que não existia, porque parecia mais fácil do que buscar a força que jamais teria. Observei as cenas e nada senti, aquilo não era mais meu.

O vi concentrar-se e inspirar profundamente a nuvem que foi fugindo para dentro dele e, finalmente, ele parecia saciado. Senti-me exausta, o vi diminuir e voltar ao homem velho que tomei a mão e permiti que entrasse em minha casa. Vi o azul esmaecido tomar novamente os seus olhos e desanuviar os meus.

Olhou para a estrada e compreendi que não havia nada a ser dito ou, tudo o que se poderia dizer, já tinha encontrado seu lugar.

O cavalo branco deixou as rosas e dirigiu-se a ele. Antes de montar, o homem tirou de sua sacola um pedaço de couro enrolado, inspirou suavemente e soprou sobre ele. Observou o resultado e me retornou o olhar com um sorriso, aquele dos sonhos que havia tido um dia.

— Adeus, e obrigado, senhora! Tenho outras histórias para contar.

Acenou e pôs-se sobre o cavalo, que resmungou por um momento o peso do amigo. Depois, resignado, seguiu a parca luz do crepúsculo à frente. O cavaleiro nunca me pareceu tão brilhante, avermelhando-se aos poucos no seguir da estrada e, depois, no escurecer da distância. Sim, a sua realidade me parecia graciosa e bem vinda, como as noites mornas de verão, quando o meu silêncio se perdia no movimento da vila.

Sentei-me na varanda e observei o dormitar do sol. O vento frio do norte me envolveu; não havia mais arrepios, não havia mais as lembranças perdidas do que não fui, as palavras que nunca pude dizer. O vento me levaria com ele, nas histórias daquele homem eu teria voz.

Tratei de ir me deitar como o sol e não mais esperar, mas me reencontrar com a aurora de um novo dia e receber outras surpresas da vida.

Conto escrito a quatro mãos por Rober Pinheiro e Sumaya Sarran.

* Rober Pinheiro é cearense de nascimento e paulistano por força do destino, como costuma dizer. Aos 11 anos começou com essa história de escrever pequenos contos  de ficção e fantasia, que mais tarde o levou a publicar seu primeiro romance Lordes de Thargor – O Vale de Eldor. Mantém-se trabalhando ativamente escrevendo para os sites: Aguarrás, um periódico científico sobre Artes e Outra Coisa, um site cultural sobre Cinema, Séries, Literatura, Quadrinhos, Música, Teatros e Jogos. Em breve, espero que os Deuses da Literatura e uma boa editora, nos permitam receber da imaginação e mãos desse talentoso escritor O Herdeiro de Seämus, que continua a aventura de Deiv e o encanto desse mundo que nos é apresentado no primeiro livro sobre Thargor.

4 pensamentos sobre “O sopro do vento norte

    • Obrigada meu querido!
      Sabe que adoro esse ser, me senti uma Deusa hindu,
      quatro mãos na mesma harmonia.

      Espero que a dívida seja prazerosa, rss!

      Acredita que toda vez que demoro a postar
      lembro dos seus puxões de orelha?!

      Beijos!!!

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