Travessia das águas

Um dia, uma jovem partiu de um lugar sem nome, triste por algo que lhe acontecera e perturbava seus pensamentos.

Não se despediu, correu em disparada e como não conhecia a direção a seguir, adentrou uma estranha floresta, escura como suas esperanças naquele momento e misteriosa como seus próximos passos. Enquanto a atravessava sem diminuir a corrida, suas roupas se rasgavam e seus pés já estavam descalços quando chegou a beira do lago.

O lago brilhante e quieto refletia a lua, como que encantada pelo reflexo e cansada de correr, buscou refúgio na face da Grande Mãe. Somente o som de seu corpo cortando as águas se ouvia e para juntar suas lágrimas ao lago, mergulhou.

Tentou voltar a cabeça para fora da água e respirar, mas uma parede, um teto transparente a impedia. Era como um vidro, uma fina camada de gelo inquebrável, mas não era inverno e segundos antes mergulhara com tranquilidade nas mesmas águas. Bateu com a força que tinha contra o teto e, de repente parou.  Para que lutar, para onde voltar? Não se desesperou, deixou-se levar pelas águas e surpresa percebeu que podia respirar, podia caminhar no fundo do lago como correra pela floresta.

Então seguiu em frente, caminhou por aquele novo mundo que se apresentou a ela. Não lembrava-se do que a fez partir, nem mesmo se havia algo que a faria voltar e continuou por muito tempo sozinha.

Aí, aconteceu que um dia conheceu outros caminhantes como ela, perdidos de suas memórias e medos, sem emoções ou histórias para compartilhar. Ocorreu-lhe que por mais belo que fosse o caminho das águas, com suas cores e seres que jamais vira, não era isso que queria e novamente partiu, deixou seus iguais e seguiu para o outro lado das águas.

E foi conhecendo seres que ouvira nas histórias de sua avó: sereias, belas ninfas, tritões e monstros marinhos. Somente quando lhes conheceu, lembrou-se de que tinha uma avó, um passado. Com eles pôde ouvir outras histórias e aos poucos foi lembrando-se de coisas que fizeram dela triste ou feliz na vida que já deixara para trás há muito tempo.

Um dia percebeu que era hora de voltar, que o mundo que construíra se fora, mas abandoná-lo não era a melhor resposta. Precisou perder-se para se reencontrar. Construiu-se novamente num mundo novo, percebendo o que de belo e verdadeiro havia naquele que deixara tão facilmente para trás. Havia as terríveis ações da vida que deixaram dor onde havia doçura, mas ainda havia motivos para voltar.

Lembrou-se dos amigos que deixara atrás da floresta, dos conhecimentos antigos que estariam completos agora com o que aprendera na travessia das águas. Do quanto ela precisava voltar para continuar seguindo.

Foi assim que seguiu em direção à parte mais ingrime de sua caminhada e subiu para as águas claras. Não havia mais teto ou obstáculo que a impedisse de sair e sob o brilho da lua refletido em seus olhos saiu das águas. A floresta à sua frente já não era mais tão escura, e o mistério de seus próximos passos estava apenas em seu coração.

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