Seja bem vindo…

– Ei, devagar… acabou de chegar!

– Quem é você? Já te vi antes, parece com…

– Não importa com quem me pareço, siga-me tenho um lugar para que passe a noite.

– Por que faria isso?

” Mesmo quando um pássaro anda, sente-se que ele tem asas “.

– Como?

– Foi um poeta francês, que disse. Precisa ler, isso faz toda a diferença na vida!

– Perguntei como sabe o que sou… ou era.

– Não importa o que sei. Apenas vim dar-lhe as boas vindas na chegada a São Paulo.

– Você, sim você também é um anjo. Posso ver suas asas, mas elas são negras ?!

– Ah! Cara, a poluição de São Paulo faz isso. Triste, não ?! Está vendo coisas, deve ser a febre, vocês sempre chegam nos temporais. Se eu não soubesse de algumas coisas, diria que em São Paulo há mais anjos do que em qualquer outro lugar do mundo…

– Tem razão, é sua capa, o relâmpago… desculpe. Então, posso confiar em você?

Sim é o relâmpago e a capa, que imaginação interessante a sua… E, não deve confiar em ninguém, está sozinho numa cidade capitalista, que não está nem aí pra mais um que apareceu caído sabe-se lá de onde.

– Mas, está aqui me ajudando….

Agradeça ao seu amigo Gabriel quando puder ou se lembrar. Vou ficar de olho em você por um tempo. Há algo em seus olhos… Bem, meu nome é Lucio.

– Estranho, não consigo me lembrar muito bem do rosto do Gabriel.

– Vai se acostumar com isso.

– Pra onde vou? Eu preciso fazer algo aqui… está tudo tão vago.

– Fez uma viagem longa, acostume-se aos seus limites e, se tiver mesmo que fazer algo, vai se lembrar ou não!

– Não consigo compreender você.

– Não tente, creio que não seja possível. E com certeza não foi isso que veio fazer aqui.

– Obrigado!

– Não me agradeça, ainda! Mas, de qualquer forma, seja bem vindo!

Boa noite!

Que chuva! É como se mil anjos chorassem…

– Mil anjos?!

Oh, você por aqui! Não é hora de dormir garotinha?

– Não. Quero saber sobre as lágrimas dos anjos!

Menina curiosa! É apenas uma lenda, muito antiga, que fala que se mil anjos chorassem um milagre aconteceria.

– E o que vai acontecer, que milagre é esse?

O milagre é diferente para cada um que o recebe. Mas de milagres nada sei, e como disse, é apenas uma lenda!

– Então, a vovó está certa: os anjos existem. Há anjos em São Paulo, onde vamos morar?

Sim, e demônios também!

– Ela falou que os anjos são bons e os demônios são maus.

Sua avó não sabe de tudo! Ninguém é totalmente bom ou mau, nem mesmo anjos ou demônios.

– Há anjos maus e demônios bons?

Difícil explicar isso para você… Vamos pensar assim: você é bem branquinha porque nasceu assim e não vai mudar de cor de uma hora para outra. Se for morar na praia e tomar sol diariamente, ficará mais bronzeada, mesmo que tenha nascido bem branca. Se for morar na praia e nunca tomar sol, continuará branquinha, mas não terá conhecido a beleza da praia. Então, todos podem mudar, apesar de terem uma tendência para isso ou aquilo!

– Hummm… anjos podem ficar bronzeados e os demônios desbotados?!

Hahaha! Menina esperta! É, acho que é isso… agora chega de papo e vá dormir, tenho que trabalhar.

– Por que sempre trabalha à noite?

Porque preciso, e a senhorita precisa dormir, agora.

– Vai me pedir para fazer a oração do anjo?

Sabe que não gosto muito de anjos, faça o que quiser, mas durma!

– Vovó fala que você é um demônio, só porque não gosta de rezar.

Sua avó é muito simples, em breve vamos para a cidade e você não terá mais que ouvir isso. Será melhor para todos!

– Mas, sabe não acredito em tudo o que ela diz, acho que sabe rezar, que só fica irritando ela com isso!

É, não quero e não preciso… você pode fazer o que quiser depois, mas agora, vá dormir.

– Bom trabalho, papai! Depois me fala mais sobre as lendas, os anjos e os demônios?

Pequena! Pense apenas que anjos ou demônios estão mais próximos do que imagina, não se assuste com o que afirmo, é nossa realidade.

– Só a vovó se assusta com isso. Boa noite!

Ela será, ela será…

Há Anjos em São Paulo

Gabriel,

Sei que, desde que daí parti não lhe dou notícias. As condições difíceis de nossa despedida talvez limitem sua percepção destas linhas, mas, por favor, tente lê-las até o final.

Naquela noite tempestuosa segui para São Paulo, oprimido e cheio de medo. Cheio de esperanças também! Todas as terríveis histórias que me contou sobre a cidade, ecoavam e apertavam meu coração. Não poderia jamais voltar e corri contra o medo, munido apenas dos meus sonhos, para o início de uma nova vida.

Gargalhou muitas vezes, quando lhe falava da nova vida que almejava. Ironizou minha vontade, referindo-se à maldade que me esperava na recepção dos demônios que habitavam essa metrópole. Mas, se há demônios, também há anjos em São Paulo. Muitos!

Tinha razão, as dificuldades foram enormes, a adaptação aos modos urbanos e ainda mais, paulistas, me desanimaram. Porém não tinha outro caminho a não ser tentar… Foi aí que descobri a magia que faz São Paulo ser tão fascinante: os anjos.

Muitos, assim discretamente pela rua, que responderam às minhas perguntas e me ajudaram a chegar em algum lugar. Outros desconhecidos, que perceberam minhas lágrimas e fizeram um gesto de “se quiser, pode falar”.

Os mais belos foram chamados de amigos, os quais, de algum modo, foram me doando aos poucos seus corações, e com eles aprendi a doar o meu.

Nos dias mais tristes pra mim, eles apareciam e me faziam ver o mesmo dia de um modo todo especial. Me deram alternativas aos problemas, que de repente, pareciam pequenos, insignificantes, diante da força que os meus amigos me faziam descobrir.

Há ainda medo, inconstâncias permanentes. Uma luta diária para sobreviver e seguir o movimento eterno de São Paulo. Uma dança louca, num ritmo que preciso seguir sem ensaio.

Essa cidade pode sim nos alienar dos sonhos, até da vida; se olharmos apenas para a chuva que castiga, o trânsito perene de suas noites brancas e dias amarelados.

Posso vê-la de outros ângulos, de muitos becos e esquinas, de múltiplas praças e expressões. Posso me ver perdido ou feliz numa balada,  já viciado nas sombras encantadas da metrópole.

Aprendi a levantar depois de tantas quedas, porque São Paulo me testa. Quer saber até onde vão os meus sonhos…

Continuo seguindo as oportunidades multicores da cidade cinza. Acreditando no apoio desses anjos amigos e, irmãos. Sabe do que estou falando.

Eles não se lembram, mas ainda me lembro, menos à cada dia é verdade, mas me lembro..

Seu, enquanto a recordação não segue o vento, e espero que ainda prezado…

Rafael