Ressurgir

Eis que o Mais Sumaya ressurge. Estou ainda pisando com os pés na areia de um novo tempo, trago tudo que fui, de uma maneira diferente, mas ainda a Sumaya que sumiu e acrescento a ela tudo de bom que encontrou neste mundo paralelo que habitou.

Talvez eu tenha me perdido para reencontrar-me, ou talvez as dificuldades tenham sido maiores para os meus olhos e sentidos do que eram na verdade. Só sei que depois de um ano em meio mergulhada num curso de Moda, muitas vezes sem trabalho e reaprendendo o que é de verdade uma casa tanto física como emocionalmente; vi que as vezes não comportamos e não podemos fazer tudo, que é preciso um foco, um horizonte para seguir e antes de fazê-lo, talvez precisemos parar.

Então, parei, tive que aceitar que algumas coisas estavam fora de lugar e não tinha a menor ideia de quanto tempo demoraria para arrumar a minha vida. Percebi que precisava escolher para onde ir e arriscar-me a seguir. Ir em frente é sempre um desafio e uma aventura. Arrisquei-me, plantei e colhi.

Aprendi coisas maravilhosas sobre as pessoas, como e por que se vestem, o que querem dizer e ser. Vi o design como uma poesia e uma dança antiga que dá forma a tudo que pudermos imaginar. Conheci mestres, conheci novos seres que tornaram-se importantes e estão me ajudando a ser a profissional que quero ser.

Conheci uma face do amor que me fez uma pessoa melhor. Conheci uma Sumaya mais consciente do que ama e do que quer manter na vida. Hoje sei por que amo dançar, ler, escrever, desenhar, costurar e fazer arte com tudo que posso imaginar. Criar com meu corpo, palavras, tecidos, tintas e papéis é como me expresso,  é como quero viver!

Nesta jornada intimista senti muita falta dos amigos, que estavam seguindo seus caminhos. Eu tive que ficar quieta resolvendo a vida e meus desafios, mas lembrei-me de suas vozes alegres e de seus puxões de orelha na hora devida. No meu coração estiveram o tempo todo, fiquei distante, porém a linha invisível que nos ligava sempre brilhou.

Aos amigos que entendem a distância, a necessidade de um casulo algumas vezes na vida, eu agradeço o abraço apertado, o brinde e os reencontros. Aos que ainda não abracei, estou esperando, sem pressa.

E ressurjo como a Fenix, como Mais Sumaya, na literatura, na dança e como profissional de moda.  Sigo no amor e na vida com o fogo da inspiração no coração e no resto dos dias do meu novo tempo!

fenix

Anúncios

Uma estrelinha

Uma  pequenina estrela todas as noites lamentava-se por ser tão pequena. Via sempre tão brilhantes estrelas ao longe, era só olhar, enquanto que para vê-la, provavelmente tinham de fazer muito esforço. Pensando assim, noite após noite a estrelinha entristecia-se mais e mais, chegava a  pedir à noite que a escurecesse e não ficasse com um buraquinho no seu manto noturno. Fazia força para apagar seu mísero brilho,sem sucesso.  Há muito havia perdido a esperança de crescer, pois o tempo passava e notava a presença de novas estrelas já bem grandes, e ela ainda naquele  mínimo tamanho…

Aconteceu que um dia a lua ouviu os lamentos da estrelinha e foi até ela:

 – Diga-me pequenina como podes ser tão egoísta!?

– Egoísta eu! – respondeu muito assustada, olhando para a lua tão cheia como nunca.

 – Há algum tempo tenho ouvido o que dizes, outras estrelas me falaram e não acreditei, então vim pessoalmente ouvir e não gostei nada do que falas.

– Por que não? Quem sentiria falta, sou tão pequenina, o meu brilho é como uma gota nesse imenso mar que vejo todas as noites, se eu sumir a noite ficará mais bela…

A lua tão antiga quanto o mundo olhou como uma mãe para a pequenina e disse-lhe:

– És ainda muito jovem para saber como o mundo funciona, mas saberá de algumas coisas hoje. Vês aquele pequenino barco no oceano, o que acha que seu pescador está fazendo lá?

– Não sei… – a  lua  aumentou a névoa no céu e o pescador parecia desesperado olhando para cima, a estrelinha ficou observando, sem saber por que a lua aumentava a névoa, até que de súbito ela percebeu que o pescador parecia procurá-la. Ela olhou espantada para a lua, e esta percebendo que conseguira sua intenção, dissipou a nuvem, feito isto o pescador viu a estrelinha e emocionado agradeceu ao céu pela pequena estrela que o guiaria para sua casa.

– Ouça pequenina, chamei-lhe de egoísta, pois com suas lamentações nunca parou para ouvir os muitos agradecimentos que os deuses e tu recebes todos os dias. Por ser como és, pequenina e brilhante, a ponta de uma constelação que se diferencia pela sua presença indicando o sul, guias os navegantes para suas casas. Como podes querer escurecer e deixar tentos sofrerem só porque te achas pequena demais? És grandiosa para eles, tu significas a felicidade de reencontrar pessoas amadas.

O jovem pescador é inexperiente perdeu-se pouco antes do sol nascer, não tinha mais água que pudesse beber, alguém que ele muito ama o espera há dois dias com o fruto de seu amor nos braços. O seu brilho foi a sorte dele, senão brilhasses, uma família inteira estaria perdida.

Aprenda pequenina a ver que tudo no mundo é importante e existe uma razão de ser muito além da compreensão dos seres, uma gota de água pode parecer pouco diante de um oceano, mas uma única lágrima de quem se ama já é muito. Sou a lua sei do que falo, aprendas estrelinha com tudo que vês!

Naquela noite o céu e as outras estrelas puderam ouvir uma risada doce e brincalhona, feliz, a estrelinha compreendera sua importância, e que isso não tem grau maior ou menor, apenas somos todos importantes…

 

estrelas

Travessia das águas

Um dia, uma jovem partiu de um lugar sem nome, triste por algo que lhe acontecera e perturbava seus pensamentos.

Não se despediu, correu em disparada e como não conhecia a direção a seguir, adentrou uma estranha floresta, escura como suas esperanças naquele momento e misteriosa como seus próximos passos. Enquanto a atravessava sem diminuir a corrida, suas roupas se rasgavam e seus pés já estavam descalços quando chegou a beira do lago.

O lago brilhante e quieto refletia a lua, como que encantada pelo reflexo e cansada de correr, buscou refúgio na face da Grande Mãe. Somente o som de seu corpo cortando as águas se ouvia e para juntar suas lágrimas ao lago, mergulhou.

Tentou voltar a cabeça para fora da água e respirar, mas uma parede, um teto transparente a impedia. Era como um vidro, uma fina camada de gelo inquebrável, mas não era inverno e segundos antes mergulhara com tranquilidade nas mesmas águas. Bateu com a força que tinha contra o teto e, de repente parou.  Para que lutar, para onde voltar? Não se desesperou, deixou-se levar pelas águas e surpresa percebeu que podia respirar, podia caminhar no fundo do lago como correra pela floresta.

Então seguiu em frente, caminhou por aquele novo mundo que se apresentou a ela. Não lembrava-se do que a fez partir, nem mesmo se havia algo que a faria voltar e continuou por muito tempo sozinha.

Aí, aconteceu que um dia conheceu outros caminhantes como ela, perdidos de suas memórias e medos, sem emoções ou histórias para compartilhar. Ocorreu-lhe que por mais belo que fosse o caminho das águas, com suas cores e seres que jamais vira, não era isso que queria e novamente partiu, deixou seus iguais e seguiu para o outro lado das águas.

E foi conhecendo seres que ouvira nas histórias de sua avó: sereias, belas ninfas, tritões e monstros marinhos. Somente quando lhes conheceu, lembrou-se de que tinha uma avó, um passado. Com eles pôde ouvir outras histórias e aos poucos foi lembrando-se de coisas que fizeram dela triste ou feliz na vida que já deixara para trás há muito tempo.

Um dia percebeu que era hora de voltar, que o mundo que construíra se fora, mas abandoná-lo não era a melhor resposta. Precisou perder-se para se reencontrar. Construiu-se novamente num mundo novo, percebendo o que de belo e verdadeiro havia naquele que deixara tão facilmente para trás. Havia as terríveis ações da vida que deixaram dor onde havia doçura, mas ainda havia motivos para voltar.

Lembrou-se dos amigos que deixara atrás da floresta, dos conhecimentos antigos que estariam completos agora com o que aprendera na travessia das águas. Do quanto ela precisava voltar para continuar seguindo.

Foi assim que seguiu em direção à parte mais ingrime de sua caminhada e subiu para as águas claras. Não havia mais teto ou obstáculo que a impedisse de sair e sob o brilho da lua refletido em seus olhos saiu das águas. A floresta à sua frente já não era mais tão escura, e o mistério de seus próximos passos estava apenas em seu coração.

402040_luna_les_noch_oblaka_voda_ozero_1920x1080_(www.GdeFon.ru)

Saindo do casulo…

 

Próximo à Primavera, percebo os raios iluminando meus novos passos…

Três longos meses se passaram e uma nova visão se mostra no horizonte. Aprendi muito e o tempo na clausura dos meus pensamentos me fez crescer, ir além das expectativas do antes. O mundo mostrou-se estranhamente pequeno e a surpresas se fizeram diárias, desafiadoras ante o momento único em que estou. Fronteiras mais claras, limites quebrados, estou além do que pensava poder e feliz por finalmente conhecer a complexidade e simplicidade da vida.

Que os amigos perdoem o sumiço e compreendam meu tempo de hibernação e colheita. Há um amanhecer diferente para cada um todos os dias e nem sempre é mesmo brilho que enxergamos no sol.

Uma Sumaya mais consciente de si e do seu lugar no mundo surge, não do nada, não como mágica, mas pela experiência do ver, encontrar-se e se perder nesse maravilhoso e complexo mundo.

Vi tanto e quase nada e nem imagino o quanto ainda a vida pode me dizer ou pedir. Prioridades são difíceis de definir, aí a professora-mor, Senhora Vida, nos dá uma ajuda e nos mostra o caminho nas urgências do dia-a-dia. Uma porta se abre, sorrateira, insegura e de repente tudo que se precisa está lá, as coisas vão acontecendo como devem, sem tantos questionamentos e previsões.

Percebi, então, que não preciso saber de tudo ou questionar o tempo todo o que acontece. Preciso viver as oportunidades que a vida me apresenta e a partir delas, moldar minhas necessidades, me adaptar para descobrir o meu caminho ou os melhores passo a dar nessa dança viva.

E continuando a seguir como sempre, volta ao mundo da internet, ainda Mais Sumaya, para aprender, crescer e dividir e sonhar e tudo o mais que eu possa trazer para esse meu espaço, sempre sagrado e respeitado.

Descobertas – Resumo de Maio

Neste mês, descobri intensamente o quanto a vida pode ser surpreendente e como podemos reagir com medo diante de algo que, por todas as pistas e possibilidades,  só pode ser bom. Que diferentes opiniões se apresentam sem pedirmos e que sem percebermos, as pessoas se metem mais do que devem em nossas vidas.

Descobri que há cicatrizes que doem mais quando tocadas com um beijo e que dançar tango (sem saber) sob o olhar da lua é um encanto do qual não quero me proteger.

Vi que eu não posso fazer tudo o que eu quero, mas o fato de tentar me faz acreditar que posso. Porém, preciso ser objetiva e, mesmo sem querer, determinar prioridades. Isso significa deixar coisas e pessoas para trás por algum tempo, assim como já fizeram comigo. Tudo parece ser uma questão de foco, de necessidade imediata, contraste e contexto do momento que estamos vivendo.

Descobri que há amigos que sabem tanto de mim, que nada dizem e entendem meu tempo de casulo, pois passe qualquer tempo, sempre nos reencontraremos no momento certo.

Neste mês, nunca senti tanto frio e calor antes e minhas crenças se mostraram claras e adequadas ao caminho que escolhi, mas tudo se renova a cada desafio, é como se eu morresse sempre e um pouquinho de mim ficasse, e desse pouquinho tudo se recriasse. O mais complexo, foi perceber que a felicidade também mata e renova, pela simples necessidade de me fazer limpa e plena para entendê-la e me permitir realmente ser feliz!

Este mês as folhas mortas caíram, páginas rasgadas de um livro antigo foram queimadas e uma estação amena diante de um novo horizonte começou. Aceito o novo olhar, as descobertas e o que ainda vou descobrir e construir!

Seus olhos…

Fico pensando no quanto me perco no negro infinito dos seus olhos.

Não tenho qualquer certeza de onde me levarão e se quero seguir, mas estou indo…

Prefiro me perder e saber que cheguei em algum lugar, do que ficar parada vendo os outros seguirem.

E não é isso que devemos, precisamos e fazemos? Seguir… seguimos como um rio para o mar, para além do que uma gota pode imaginar.

Somos talvez talhados e nascidos para isso: seguir. Andar na busca de horizontes mais belos, desafiadores, misteriosos…

Há no sangue uma informação de milênios, eras e vidas sobre seguir. No nosso talvez tenha um pouco mais!

Percebi que não tenho medo de seguir e descobrir o que esses seus olhos negros podem me mostrar, me propor.

Assim, continuamos o que muitos antes de nós já fizeram. Seguiram, se perderam e reencontraram!!!

O fio que me liga aos seus belos olhos é como a linha da estrada, em frente, em frente… sempre!

Muito a descobrir, muito a ver e sentir. Seja bem vindo à minha estrada!

Não fugi!!!

Pessoas…

não se preocupem, não fugi!!!

Minha vida está uma loucura como a de todo mundo! Estive às voltas com provas que ainda não acabaram, pesquisas e mais pesquisas e descobrindo um mundo novo.

Na verdade, um mundo muito antigo cheio de desigualdades e preconceito, mas estou observando essas velhas máximas por outro ângulo. Pelo ângulo das mudanças, do que já foi feito e do quanto ainda se pode e deve fazer.

Estou pesquisando e aprendendo sobre Direito Internacional, fundações, participando de congressos e descobrindo algumas capacidades. Talvez eu possa fazer alguma coisa ainda.

Não serei clara, e isso não é importante agora, só queria que soubessem que continuo ativa, muito mais que antes. Espero que tenham sentido falta das minhas palavras. Eu senti falta de escrever-lhes e esperar ansiosa por um comentário.

Em breve compartilho minhas descobertas e quem sabe, minhas simples ousadias nesse mundo tão antigo!

Sempre em frente, gente!!!

O sopro do vento norte

Ele surgiu na curva da estrada, com o alvorecer. No rosto, o brilho triste do último orvalho da manhã. Trazia como companhia nada mais que a velha espada, sem bainha ou corte, e lembranças tristes de dias longe de casa, da casa que jamais pensou ver novamente. Olhava para o horizonte de pedras ao largo da margem do caminho, como se outro horizonte, mais sereno, acolhedor, não houvesse à frente, enquanto seguia o lento pisar do único amigo com quem parecia dividir sua dor.

Chegou. Achegou-se!

Os olhos percorreram o caminho até a casa, por sobre o portão, o chão de terra pisada, as escadas, até a varanda aonde eu o esperava, mesmo sem saber que um dia ele viria.

Não conhecia seus olhos, de um pálido tom de azul, nem suas mãos firmes, agora acanhadas entre as rédeas, como se temesse soltá-las e não conseguir encontrar mais utilidade para elas. O cabelo, cor de terra, da terra vermelha do caminho, não tinha a graça que imaginei tantas vezes em sonhos e o sorriso, apenas um riso difícil, não trazia o esplendor jovial das histórias da minha infância. As vestes brilhantes, riscadas em linhas de ouro e pedrarias que tantas vezes esbocei em idealismos pueris, nada mais eram que rústicos tecidos de cores indistintas, cuja formosura, se é que um dia a tivera, se perdera pelos meandros do caminho. Sua chegada tampouco foi heróica, nem seu companheiro possuía a beleza cândida e cúmplice dos contos antigos.

Apeou. Amoldou-se!

A dureza do chão, o inacabável tempo da caminhada, os velhos ossos já não tão resistentes… ou, talvez, apenas a estranheza de não ter sob si outras pernas que não as suas. Conhecedor do próximo passo, seu amigo afastou-se para os lados, buscando a companhia de um convidativo arbusto de rosas que o recebeu indiferente, abanando com desdém as folhas esverdeadas sob o vento frio que soprava do norte.

— Minha… Senhora. — O cumprimento veio de forma acanhada, como se as palavras tivessem desaprendido o caminho entre a origem e o destino final. O significado! Nada respondi, apenas acenei um assentimento ligeiro, coisa que carecia de mais crença.

Ele foi se achegando, sem cerimônia, sentou-se nos degraus da varanda e olhou absorto o caminho percorrido. Segui seu olhar, mas nas nuvens que pesavam sob seu semblante não vi nada mais que prenúncio de tempo bom. O dia, afinal, mostrava a que veio de acordo com cada pesar.

— Sou um forasteiro, um foragido, e entenderei se não me puder acolher à sombra de vossa varanda — as palavras, como antes, saíram sem cor ou forma; apenas deixaram os espaços da boca e ganharam o mundo, como se precisasse justificar o vazio deixado pelo silêncio.

Feita de silêncio, e ainda tomada pela surpresa, nada consegui responder.

Custava-me acreditar que meus sonhos haviam se deteriorado tanto. Os anos passados na solidão da distância, cujo arrastar vagaroso me haviam tomado a juventude, agora riam das minhas esperanças, desapiedados!

Tomei sua mão assustada e o conduzi para dentro. Sobre a mesa, pão, leite, mel e uma caneca rota que, por uma vida, esperou uma mão que a tomasse como sua. Comeu com sofreguidão, olhando-me sobre a maciez tenra do pão recém assado. Segui-o à mesa, o vaso de leite balouçando a frente do rosto, para disfarçar meu desacostume, minha inexperiência.

E, como se impelido pela insegurança do momento, ele contou-me suas desventuras.

Era desconcertante observá-lo sentado à minha frente, desajeitado nos modos, talvez pelo tempo na estrada, mas eu também não estava tão à vontade. No meio da história, sorvia da caneca entre as mãos, como se quisesse devolver as palavras à origem de suas causas. Os olhos, por vezes, atravessavam os meus, delineando na parede decadente as cenas que outrora lhe fizera soldado, homem honrado e perdido na tempestade de seus sentidos. Em seus traços vi os atos, a fuga, o silêncio.

Tomei-lhe o caneco com delicadeza e enchi-o com cerveja, achei que a hora era propícia e a bebida quente poderia saciar-lhe qualquer coisa que eu não entendia nos homens. Ele me parecia maior do que imaginei e de um apetite que eu não poderia dizer que me surpreendia, visto que conhecia apenas o meu. E assim, enquanto ele ia crescendo e preenchendo o espaço da cozinha conforme as horas consumiam a manhã, questionava-me o quanto havia imaginado e me perdido nas brumas do tempo. Onde estava o lago e o brilho do sol, ou os pássaros e as flores da primavera?!

Continuava a me contar suas impressões, as lutas perdidas no caminho até ali. Houve momentos em que vi a sua juventude longínqua, o fulgor do fogo em seus cabelos, e eram leves os traços riscados pelos relatos dos seus dias e noites de vigília, de sangue ou volúpia. Dias de lutas sem qualquer importância ou sentido para mim, noites que não conheci nos sonhos mais antigos e jamais pude descobrir o caminho que levava a eles.

Ele ia contando, enumerando seus feitos, enquanto eu seguia minha rotina de afazeres. Seguiu-me até o quintal, quando fui buscar lenha e espaço para os meus pensamentos. Com polidez e dificuldade, ele cortou a lenha e ainda servia-se da cerveja. Imaginei-me decepada como a lenha, lascas caídas aos seus pés e outras agarradas ao machado, sobrevivência ou agradecimento? Ouvi seu silêncio, branco como o inverno; assenti e ele ainda tinha a contar…

Sentei-me à mesa e nos servimos do assado. A fome, que parecia maior, não o calou e descreveu o sabor que sentia, o aroma da madeira infiltrado na carne, as ervas frescas que piquei com cuidado.

A impressão que um gigante invadia minha casa dava-me arrepios, e quando o vento da tarde anunciou o mesmo sentimento, acendi a lareira. As chamas cresciam e ele se libertava, fugia; dei mais atenção a esse capítulo de sua história, eu também queria fugir.

— E foi assim que aconteceu, senhora.

O azul esmaecido de seus olhos enevoou os meus por um momento. Ele era a lembrança de tudo que não vivi, a ilusão que me acompanhou por todos esses anos… Percebi suas pupilas aumentando e em pouco tempo estava envolta nas sombras vítreas de um olhar quase senil, distinto instantes atrás. Ele crescia, seus músculos voltavam ao que teriam sido num passado de glórias distante. Sua respiração era como a invasão das tempestades de outono, e diante de mim estava o sonho esquecido, alguém que prometeu voltar; já não me lembrava se era vida ou devaneio a promessa que se apresentava.

Como se as palavras já houvessem acabado, ele tomou-me de repente, sugou de minha boca tudo o que não havia dito nunca na vida. Senti o sugar das angústias e medos, a desesperança de caminhos não seguidos, o grito terrível emudecido pela espera e a rotina que embotou minhas forças. E o grito ecoou de mim para ele, e dele para a sala, para a casa, para a vila inteira talvez. Tudo tremeu ao redor e, depois, retornou ao silêncio. Como a visão do tremeluzir da chama duma vela. E esta ilusão estava ali, próxima ao teto, era como uma bolha, uma nuvem translúcida com cada momento que fiquei para traz, que achei melhor esperar o que não existia, porque parecia mais fácil do que buscar a força que jamais teria. Observei as cenas e nada senti, aquilo não era mais meu.

O vi concentrar-se e inspirar profundamente a nuvem que foi fugindo para dentro dele e, finalmente, ele parecia saciado. Senti-me exausta, o vi diminuir e voltar ao homem velho que tomei a mão e permiti que entrasse em minha casa. Vi o azul esmaecido tomar novamente os seus olhos e desanuviar os meus.

Olhou para a estrada e compreendi que não havia nada a ser dito ou, tudo o que se poderia dizer, já tinha encontrado seu lugar.

O cavalo branco deixou as rosas e dirigiu-se a ele. Antes de montar, o homem tirou de sua sacola um pedaço de couro enrolado, inspirou suavemente e soprou sobre ele. Observou o resultado e me retornou o olhar com um sorriso, aquele dos sonhos que havia tido um dia.

— Adeus, e obrigado, senhora! Tenho outras histórias para contar.

Acenou e pôs-se sobre o cavalo, que resmungou por um momento o peso do amigo. Depois, resignado, seguiu a parca luz do crepúsculo à frente. O cavaleiro nunca me pareceu tão brilhante, avermelhando-se aos poucos no seguir da estrada e, depois, no escurecer da distância. Sim, a sua realidade me parecia graciosa e bem vinda, como as noites mornas de verão, quando o meu silêncio se perdia no movimento da vila.

Sentei-me na varanda e observei o dormitar do sol. O vento frio do norte me envolveu; não havia mais arrepios, não havia mais as lembranças perdidas do que não fui, as palavras que nunca pude dizer. O vento me levaria com ele, nas histórias daquele homem eu teria voz.

Tratei de ir me deitar como o sol e não mais esperar, mas me reencontrar com a aurora de um novo dia e receber outras surpresas da vida.

Conto escrito a quatro mãos por Rober Pinheiro e Sumaya Sarran.

* Rober Pinheiro é cearense de nascimento e paulistano por força do destino, como costuma dizer. Aos 11 anos começou com essa história de escrever pequenos contos  de ficção e fantasia, que mais tarde o levou a publicar seu primeiro romance Lordes de Thargor – O Vale de Eldor. Mantém-se trabalhando ativamente escrevendo para os sites: Aguarrás, um periódico científico sobre Artes e Outra Coisa, um site cultural sobre Cinema, Séries, Literatura, Quadrinhos, Música, Teatros e Jogos. Em breve, espero que os Deuses da Literatura e uma boa editora, nos permitam receber da imaginação e mãos desse talentoso escritor O Herdeiro de Seämus, que continua a aventura de Deiv e o encanto desse mundo que nos é apresentado no primeiro livro sobre Thargor.

Não fuja da vida!

Sei que sente-se perdido, que a lua e o sol não te dizem mais nada.

Que não há beleza que te faça sentir ou brincadeira que te faça sorrir.

Minha existência é apenas rotina pra ti mas eu continuo acreditando em ti.

Em cada palavra que ecoa do teu coração, da tua tristeza e escuridão.

Acredito que pode ser tudo, vencer tudo, cada medo e até a angustia que te enclausura.

Tente se lembrar dos dias que te fiz feliz, dos dias que a minha presença era só o que querias.

Lembre-se dos dias que passaram céleres e eu estava lá, no final de cada um deles, te esperando e te seguindo.

Tente não se perder nesse abismo, abra os olhos, há tantas mãos estendidas para te puxarem daí.

Lembre-se por que essas mãos te querem tocar e abraçar, por que essas mãos se desesperam às suas costas.

Tente escutar as vozes dos teus amigos, eu estou nelas, estou em ti. Por favor não me olhe como uma inimiga.

Preciso de ti desde o primeiro momento, olhar, suspiro, palavra. Existo para que faça de mim o que quiser, mas faça.

Sei da tua força, da tua beleza de alma, do teu coração maior que o mar, da tua teimosia como o martelo num gongo.

Sei da luz imensa que muitos não vêem, das cicatrizes que te pesam os passos e também sei que ainda podes seguir.

Tente se lembrar do meu nome, tente se lembrar das vitórias que tivemos, das conquistas, das lições,

Lembre-se que em cada derrota eu também estava lá e com cada lágrima tua meu coração se partiu.

Não choramos apenas pelas tristezas, houve alegrias, houve surpresas e reencontros, há frutos.

Continuarei a estar contigo, como antes e sempre sua VIDA!

Marcas

 

Ainda me lembro das palavras que não pude dizer, do seu olhar de “tudo bem” quando lhe neguei atenção e prometi que falaríamos depois, eu precisava fazer as lições. Não deu tempo, ou talvez houve tempo suficiente e eu não sabia como aproveitar.

Pensei que você sempre estaria aqui, que eu voltaria ao mesmo momento e poderia te ouvir, que ficaríamos acordados até tarde lembrando de músicas e brincando de stop.

Acreditei que nos encantaríamos com a cor do céu muitas vezes ainda e que me pediria sorridente para separar a camiseta preferida da mesma cor, sempre bem na hora que eu estava atrasada para ir à escola.

Pensei que nos veríamos de novo, depois daquela conversa. Eu gostaria tanto de ter entendido o que me disse aquele dia mesmo e de ter idade para saber o que eram as entrelinhas. Queria ter sabido te dizer as palavras certas e ter a certeza de te encontrar de novo, com o mesmo brilho nos olhos verdes que eu ainda ficava na ponta dos pés para encarar.

Me lembro da sua risada enchendo a madrugada, do seu olhar triste no dia seguinte. Do abraço apertado, quando incomodada com o seu silêncio eu me sentava ao seu lado e perguntava se o gato havia comido a sua língua.

Ainda é nitido o seu olhar nublado, segurando as lágrimas para que eu não chorasse quando me disse que precisava ir embora. Que sempre voltaria para me ver. Algo me disse que isso não aconteceria, mas fingi não ouvir. Preferi tentar guardar o seu perfume, as palavras sobre ser feliz sem me machucar e também não deixar ninguém fazer isso comigo. Que nada na vida seguia regras, que eu aprendesse a me surpreender.

Você partiu no meio da tarde. Aí, não tinha mais contagem de estrelas, nem os azuis do céu, o jogo de stop, as músicas para cantar junto contigo, meus pequenos textos para que lesse e tive que me acostumar com isso. O tempo passou, célere como sempre.

Eu o vi novamente, nem precisava ter crescido, você estava deitado, não o reconheci. Senão fossem os olhos felizes ao me ver, vaga lembrança do que eram num passado nem tão distante, eu teria seguido para o outro lado. Abracei alguém que não tinha mais força para fazê-lo.

Você partiu de novo no meio da tarde. A noite trouxe um vento de libertação e depois da madrugada o céu estava tão azul… sorri, naquele céu eu te encontrei novamente. Mais forte que tudo que eu não entendi foi encontrar em meio às suas poucas coisas um cartão com letra infantil, falando do azul do céu e do brilho do seu sorriso.

Sigo, meu irmão, os caminhos que me fazem bem e feliz, comemorando ou chorando as surpresas da vida. Há um céu azul que me olha e um brilho que carrego no coração eternamente.