O despertar

Quando ouviu a música, algo em seu íntimo pareceu mudar. Antes que percebesse ou pudesse permitir, seu corpo já manifestava os sentimentos induzidos por aqueles sons que remontavam um passado tão perdido quanto vivo em seu ser.

A casa, o mundo, sumiram e ela parecia explodir, tamanho o calor e e força que se debatia dentro de seu corpo frágil. A boca ficou seca. Suas mãos tremiam no ondular dos braços, a delicadeza dos dedos hipnotizavam-na cada vez mais e encantava-se com o torpor turbulento que lhe tomava conta.

Uma devastadora e restauradora força mágica nascia, como se brotasse da terra e através dela encontrasse os céus. Os arrepios alinhavam sua coluna e a respiração transformou-se, parecia o sopro de um tufão. Era como se naquele instante a vida lhe sorrisse bela como nunca viu.

Os olhos  fechados rendeu-se às lágrimas, que foi lavando sua face e dizendo que o sonho era real. As batidas do coração tinham o ritmo da música e seu corpo não era mais só corpo: era todo música, todo sonho, todo canto…

Aquele encontro consigo, jamais tivera e sentia-se tão amada como capaz de amar. Compreendia tudo aquilo que a expressão das palavras não alcançavam. A força mágica formigava em seu ventre e a sua beleza encontrava a liberdade na dança. Os movimentos eram fortes e suaves, protetores e de luta.

Inteiramente mulher, por um momento pensou ser outra pessoa. Então entendeu que se conheceu naquele momento e a cada passo mudava para ser apenas, ela. Poderosa e viva como tinha de ser. Com medos e amores encontrou naquela dança todos os possíveis sentimentos.

Girou, girou buscando para si toda a energia presente; abriu os braços e elevou-os tentando a eles direcionar tudo que havia nascido em seu ser. Estava ligada ao céu e a terra. Ajoelhou-se no vagar dos sonhos e a música cessou.

Era, agora, outra. Sua busca havia começado e lá fora a floresta negra da cidade a esperava. A lua continuaria a cantar-lhe outras canções e seria envolvida em sua aura e, novamente dançaria. Os olhos de abriram para seu novo mundo, mas talvez o mundo não estivesse pronto para aquela nova mulher.

Brilho de Lua

Um anjo se esconde da chuva,

mas a lua o persegue por seu erro,

as asas quebradas pesam sobre o corpo branco.

A chuva castiga seus sonhos,

quebrando-os como rocha sobre o vidro.

E lágrimas quentes percorrem o rosto frio.

A lua está frente ao anjo e ele não pode mais fugir.

Sua aliada, a chuva, derruba-o no chão de pedras negras

ferindo o frágil ser.

O anjo roubou um pouco do brilho da lua,

para presentear o menino dos olhos de céu,

que queria uma estrela para brincar…

Mas a lua imponente, orgulhosa,

mostra sua face oculta e cega o anjo branco,

que sente o coração quebrar, mas sorri…

Pois o menino de olhos de céu lhe deu um beijo,

e toda vez que brincar com a estrela

lembrará do branco anjo.

Mas a lua imponente, orgulhosa, quer seu brilho de volta;

e com um raio de luz como mãos de pérolas,

segura o pescoço do anjo…

Ele não diz onde está o brilho,

pois o menino de olhos de céu.

sempre se lembrará do anjo branco.

As mãos de pérolas de repente somem,

e o anjo cai,

sem vida.

E nos trovões, a gargalhada da chuva,

que varre o corpo branco pela noite nua,

com a lua escondida.

Um grande sol acorda triste

e chora a chuva de verão pelo belo anjo branco,

que sumiu no alvorecer

Com fúria destrói um jardim, o jardim do menino de olhos de céu.

Que jogou no poço do esquecimento o brilho da lua

e agora chora por um pedaço do mar…

Considerações:  escrevi esse texto há muito tempo, impressionada e influenciada pela estética de Oscar Wilde. Reuni todas as recorrências do que gosto de escrever: anjo, lua, noite e fui brincando de escrita wildeana; valorizando as cenas com cores e sensações, poetizando a ironia. Sou apaixonada por esse escritor, em breve escreverei sobre sua figura única e sua passagem interessante por esta terra sem memória, necessitada de pessoas ousadas e inteligentes.

Parabéns Rober!!!

Querido amigo,

Parabéns a você não seria algo muito original, então deixo que Loreena Mckennitt lhe faça as honras com a beleza de sua arte!

Que seu dia seja belo, cheio dos sentimentos que edificam os seus dias vindouros. Que cada um de seus desejos sejam realizados, desde uma simples vontade ou necessidade até o maior de seus sonhos!

Espero que hoje, seus amigos consigam te lembrar o quanto és importante, indispensável à felicidade deles. Talvez alguns estejam distantes e não possam te abraçar, mas de alguma forma chegará a ti o beijo e o sentimento sincero.

Que seus olhos observem hoje, uma nova estrada, um novo momento com tudo de melhor por acontecer. O brilho de uma estrela te observa, aquela que nasceu junto contigo, quando seus olhos se abriram e partiu para a viagem da vida!!

Neste dia ouça com mais atenção a sua inspiração, sua alma há de querer lhe dar conselhos, “recarregá-lo” daquela esperança e energia necessária para o próximo ciclo. Deixe-se levar pelos bons momentos, pelos sinais, pelas coincidências…

O que posso dizer além do que sabe?! Que te quero muito bem sempre, mais e mais conforme te conheço e vamos nos permitindo entrar na vida um do outro. Admiro seu talento, sua arte encantadora que me permitiu encontrar você e um pouco mais de mim. Sua presença é um presente dos Deuses, uma prova que vale a pena continuar acreditando na vida, pois seremos recompensados.

Te adoro, você já sabe! Conte comigo para tudo. Sei que o aniversário é seu, mas eu que me sinto privilegiada por poder abraçá-lo hoje e, nos seus olhos ver a realidade dessa amizade!

Rober, Sumaya e Everson

Ode ao adeus!

– Já chega! Tudo acabado. Você não me ouve…

O  silêncio foi total, ambos se olhavam, talvez esperando que o inevitável fosse adiado. Ela, sem expressão e ele magoado, orgulhoso… o ziper fechou a mala e o desfecho do relacionamento.

– Lembra-se, que lhe disse, quando você entrou por esta porta: “meus sonhos estão a seus pés, cuidado onde pisa!”.

Ele respirou fundo, lembrou-se que ela realmente havia dito isso, mas nenhum dos dois prestou atenção aos caminhos que seguiram. Não olhou em seus olhos novamente e bateu a porta.

Ela segurou o arco e fez seu instrumento expressar o que já não fazia há muito tempo. O choro do violino rompeu o silêncio, a corda soava a angústia que seu peito refreava. O som superava o que qualquer palavra ou lágrima pudessem representar.

Os olhos fechados permitiam a ela um mergulho na música maldita, cheia de sentimentos perdidos. Era tão bela que quase agradeceu ao homem que partira de vez seu coração e de sua vida, pela dor que tomava forma em sua música.

Dor que ecoava cheia de talento e perfeição nas notas do violino. Era levada ao êxtase com o toque certo e bem medido, ora forte, ora suave. Delicadamente perigoso como o prazer nascido da morte. A música ecoava em seus poros, causava arrepios, angústia e regozijava a alma e o corpo num só instante.

Ela sentia que no movimento do arco capturava o montruoso espectro que bailava sobre seus  desejos. Tornou-se dona, protagonista da melodia, tão encantada como encantadora.

Os gemidos das cordas não são humanos, pensava. Suas fantasias tomavam forma de notas, suas mãos arrancavam do instrumento a fúria prazerosa de seus lamentos, conturbados sentimentos. Lhe parecia que universos se fundiam num constante paralelo de emoções lógicas, talvez não prováveis, mas jamais impossíveis. Nunca magoe o coração de um músico, ela havia pedido.

Sentia o ápice se aproximando, suava e seus dedos seguiam  a mágica inconcebida do ir e vir da música. Uma extensão e refração da consciência perdida de si mesma. Fechou o acorde e puxou o arco como se fosse uma flecha de uma ferida fatal.

Abriu os olhos quando ouviu o grito lá fora… alguém encontrou a morte na grande avenida. Ela sorriu, a melodia estava completa!

O que eu quero da vida?!

Da vida quero o que ela quiser me dar,

do sonho à loucura o que eu puder conquistar.

Da vida quero o sorriso, o encanto, o encontro

de quando e quanto com um canto ou conto de todos os cantos.

Da vida quero o vento que transforma, muda tudo de lugar,

arrebata, dança, que desfaz os tormentos, que tanstorna

a normalidade da rotina e enche de liberdade os meus dias.

Da vida quero o despertar do brilho  que os olhos irradia,

a lembrança que diz que é todo dia justamente

o melhor dia para ser feliz!

Da vida quero cada momento, cada palavra,

seguindo um rio, fluindo e crescendo.

Da vida quero os amigos amados sempre ao lado.

Cada lágrima de alegria ou tristeza

e seja lá como for, ver na vida toda a sua beleza!

Lua Cheia

A lua se mostra tão cheia e nua

como a fertilidade mágica da bruxa que a venera.

Na noite, as trevas, as sombras

são notas da música que embala os sonhos

daqueles que sabem o que buscam.

E os loucos e os lobos se encontram…

A festa para a dama da noite se inicia.

Em volta da fogueira uma dança envolve os seres

e os seus corpos flutuam,

na névoa dos encantamentos noturnos.

O vinho é o sangue que lhes dá vida,

e a vida é o valor que se dá a morte.

Na última hora,

quando o senhor e a dama se encontram,

a torrente chuva apaga a fogueira.

E como a fumaça se esvaindo ao vento,

tudo some.

Até que a noite volte, tudo é ilusão.

Um beijo

Na noite negra,

uma lua branca enfeitiça um anjo.

Ele sonha ser homem e ganhar um beijo

da menina que dança ao vento.

Ela imagina um príncipe alado

trazendo estrelas para adornar

seus cabelos dourados…

O anjo foge do céu e busca a menina.

Mas uma lágrima corre pelo rosto triste,

depois que ela negou-lhe até um olhar de carinho.

A menina não soube ver a essência do homem,

que era o príncipe, um anjo,

e continuou a esperar…

O anjo sem asas corre pela ponte

e se ouve o som de algo que se afunda,

no rio que se chama morte…

O sol…

Como fugir do brilho do sol?

Criatura alguma jamais será feliz

sem render-se ao calor de tal astro.

Por mais que temam, fascinam-se

por mais que se escondam o desejam,

recuam, mas querem seu abraço

seu sorriso, seus raios coloridos.

Seu beijo quente em meus cabelos,

não posso, mas te quero

não quero, mas te amo.

Me perco em sua luz constante

e já faço parte dela,

algo em mim se renova.

Quem sou diante de teus olhos em fogo?

Que chama é esta que meu corpo clama?

Por que agora e não antes?

Onde está minha coragem

de mergulhar em minha única vontade,

essa luz soberana que me invade.

O que faço com meu coração aflito

que precisa de luz

da liberdade que o sol oferece…

Estrela Ascendente

Conta a lenda que um dia, do alto uma Deusa partiu…

Estava triste e só, perdida na missão recebida:
devia exterminar os homens, seres cruéis
que em nada contribuíam para o seguir da vida,
perturbavam o equilíbrio da natureza.

Ela, perdida ante ao que como beleza concebia,
não sentia-se capaz de cometer tal ato
e como sacrifício, de sua deidade se despiu.
Com os humanos foi viver e se preciso: morrer

Tornou-se lenda para os que a conheceram.
Sua força, sua beleza, sua saudade, seu sorriso;
de todo encanto, o seu era único.
Diziam que ela surgira com o arco-íris,
que de seu coração todos os raios seguiam
para cada canto, cada sombra, cada medo…

Seus olhos eram da cor de esmeraldas
que nunca viram a luz do sol,
aquelas que dormem resolutas no profundo ventre da Terra.
Seu coração bondoso, brilhava como o ouro escavado pelas cachoeiras.
Sua pele era o próprio luar, quando plena a lua se mostrava.
Seus cabelos eram como um mar de fogo, ondulando,
indo e voltando ao sabor do vento.
Ela dançava, porque assim ainda se lembrava dos seus idos tempos,
onde como deusa, os humanos observava e a eles se entregara.

Então aconteceu… os Deuses, seus irmãos descobriram sua morada
e a queriam de volta; sua luz, sua divina figura a encantar suas vidas
que já não eram tão felizes desde que ela partira.

Uma terrível luta travou-se e lágrimas e sangue de homens e deuses
na terra caíram e ela tremeu;
o sol e a lua se uniram com medo, e a escuridão imperou.
A Deusa gritou, o silêncio se fez…

Os antigos Deuses surgiram e acolheram a bela Deusa,
ouviram sua angústia e decidiram
que homens ou deuses com ela não estariam.
Entre lágrimas e sorrisos a Deusa sumiu
entre as cores de seu arco-íris.

Enquanto lamentavam a perda,
eis que alguém apontou para o céu que
se desnudava das nuvens plúmbeas.
Uma estrela nunca antes vista lá estava,
e para eles brilhava com tal intensidade
que se podia acreditar que era ela;
o calor de seus belos olhos ainda os observava.

Os humanos pararam de chorar e para a
Estrela Ascendente puseram-se a cantar…
Os Deuses perceberam o amor que aqueles
seres cruéis tinham por sua irmã,
pensaram que talvez estivessem errados
e pela primeira vez tentaram olhar os homens
com os olhos de sua Deusa irmã.

E desde que a Estrela Ascendente no céu se encontra,
homens ou Deuses não se sentem sós.
Seu brilho os guia, os lembra que é preciso seguir o que acredita.
Que é preciso tentar, que é preciso abraçar o medo e recomeçar…

Para minha amiga-irmã e estrela sempre ascendente, Evelyn Lungato.

Lembrança…

Como fosse ainda tão claro o sabor daquele beijo,

ela levou aos lábios a mão,

tentando talvez colher tal sensação.

Na face ainda o desejo, enrubescida

com a lembrança dos toques ousados

nos seios desnudados.

Por que tivera tanto medo?

Por que se negara a mergulhar na malícia daqueles olhos noturnos?

Que fosse por um momento perdida, atrevida, mas completa,

que rompesse as barreiras de uma moral incerta,

nos limites de um prazer que seu corpo desconhecia.

Ah! Se pudesse voltar o tempo e se entregar,

se deixar penetrar pela força voluptuosa de um ser,

de um amante escondido num sonho.

Deixar-se levar suavemente e tão de repente

como corta o fio da espada,

abrir-se para a vida como o sangue

que jaz de uma ferida.

Por que não fora louca em busca

da lucidez nos seus braços estranhos?

Rendida pela sede daquela boca

cheia de encantos, de mistérios…

O arrebatamento que experimentou

no caminho dos dedos dele no seu corpo trêmulo.

Ah! Seu corpo parecia chorar,

vibrar por aquele toque muito antes de pensar.

O cheiro dele a inundava de tal forma

que  olhá-lo era como um mar profundo

e imperioso, tragando-a para si.

Ele queria e ela queria…

De olhos semi cerrados ela ainda se perguntava

por que se negara o prazer daquele ser.

Fugira, indiferente aos seus galanteios,

desprezou o fogo dos seus olhos

e acabou por conhecer o amor por outros meios.

Não sentiu falta de seus passos na areia,

não percebeu a fluidez de seus movimentos

e lá atrás um corpo belo de mulher

inerte aos seus lamentos.