A Lua e a Feiticeira

Um velho manuscrito ensinava os cálculos para descobrir uma noite especial, que acontecia a cada 1091 dias, na lua negra. Nessa noite, a feiticeira pediria à Lua seus dons: ver, ouvir e sentir de seu modo lunar e atravessar as barreiras das almas. Esse poder incalculável atiçou a curiosidade de Karina, que recebeu de forma misteriosa o pergaminho em suas mãos e aceitou o desafio.

1a. Noite

Ah! Senhora da Noite, aqui estou envolta em seu manto à procura de teus dons.

Dai-me espaço e guia meus sonhos.

Permita à sua serva ouvir com teus ouvidos a voz do mundo,

permita que eu veja com teus olhos de Dama Deusa os seres que habitam a Terra.

Permita-me Senhora, caminhar ao teu lado,

ser também parte de ti e conhecer os prazeres e

mistérios que envolvem a noite.

Ouça minha voz Senhora, ouça meu canto e se encante,

pois por ti já estou encantada…

Karina esperou e nada ouviu ou sentiu. Ao amanhece foi embora, mas não desistiu e passou os anos pensando no que faltava em seu pedido.

2a. Noite

Ah! Senhora da Noite, aqui estou envolta em teu manto, pedindo suas dádivas.

Peço, com simplicidade,  que mostre-me o mundo de mistérios

e encantos encerrados dentro de ti.

Por amor, faça-me parte de teus prazeres,

de teus olhos de loucura, a hipnose do animal que te procura.

Envolva-me nas teias dos teus amores, mostre-me os teus amantes.

Leve meu canto com sua voz de Dama Deusa para todos os seres que habitam a Terra.

Conte-me tuas histórias e faça-me parte delas. Leva-me contigo.

Ensina-me a sonhar. Aqui estou a teus pés.

Amo sua luz, amo sua força, leva-me contigo…

Novamente Karina esperou e em certo momento, a intuição que sabia vir da Lua lhe perguntou: “O que és?”, “O que amas de verdade?”. Chorou, pois tanto preparo não foi suficiente, já que não sabia como responder as perguntas. Passou os anos, dessa vez à procura de si mesma.

3a. Noite

Ah! Senhora da Noite, aqui novamente estou inteira e diferente.

Não vim pedir-lhe coisa alguma.

Vim apenas dizer-lhe que quero correr pela noite

num cavalo alado e ver com teus olhos de mistério e encanto a loucura do mundo.

Desnuda de meus trajes, levo apenas o meu ego de mulher

que como tu traz todas as faces dos sentimentos dos seres da Terra.

Quero ser parte de todos os encantos,

medos e prazeres que teu manto arrasta por onde vai.

Aqui estou, inteira , contemplando a minha e a tua natureza, à qual me entrego.

Mulher, nua, em lágrimas ofereço-te meu corpo, meus sonhos e meu desejo

de habitar as brumas da magia, da essência da vida e da morte.

Em desespero e em luta me entrego a ti. Se aceita-me, responda.

Se não aceita-me, a Lua ensina que o orgulho é maior que o amor

e assim não há mais sentido nesta cavalgada e também para a minha vida.

Aceita-me em teu seio de mãe, irmã, amiga e simplesmente mulher.

Cante para mim, oh Deusa, e se tenho que partir da vida que conheço,

cega-me com tua luz divina…

Em lágrimas, Karina ajoelhou-se à beira do lago e contemplou com surpresa seu corpo e os cabelos envoltos por um brilho branco. Sentiu-se flutuando, quando ouviu a voz da lua:

Ah! Filha, imaginastes que eu esquecera de ti?

Não, meu orgulho não é maior que o meu amor.

Queria apenas que encontrasse em ti mesma o poder que é teu,

para que depois, eu lhe mostrasse o amor e poder que posso te dar.

Farás uma viagem comigo pelas estações do ano e da vida.

Adormecerá e a cada parada, perguntarei se queres continuar

a desvelar o Passo das Estações.

Durma, minha filha. As folhas e a lama cobrirão teu corpo

do vento mais rebelde e frio.

Os animais selvagens protegerão o vale

e ninguém atormentará nossos sonhos.

Venha comigo e ouça as Vozes do Outono”.

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